Juros & Selic

Selic e mercado imobiliário: como a taxa afeta yield, cap rate e custo do crédito

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Edifícios residenciais em São Paulo e impacto da Selic no mercado imobiliário
Edifícios residenciais em São Paulo e impacto da Selic no mercado imobiliário

A relação entre a Selic e mercado imobiliário determina diretamente o custo do crédito imobiliário, a formação de preços de ativos e a alocação de capital entre imóveis físicos e veículos de investimento como os fundos imobiliários. Quando a taxa básica de juros sobe, os spreads dos financiamentos se ampliam e a demanda por aquisição de imóveis com alavancagem diminui; quando cai, o efeito inverso estimula volumes de transação e compressão de cap rates. O investidor que acompanha esses canais consegue antecipar variações de yield, de dividend yield de FIIs e de retorno total ajustado ao risco.

Mecanismo de transmissão da selic para preços e demanda

O primeiro elo da cadeia é o custo do financiamento habitacional e comercial. Bancos definem a taxa do crédito imobiliário como Selic mais spread de crédito mais margem de liquidez. Com Selic em 10,50 por cento ao ano, um financiamento indexado ao IPCA mais 4,5 por cento resulta em taxa nominal aproximada de 15,3 por cento ao ano. Elevando a Selic para 12,00 por cento, a mesma operação passa a custar cerca de 16,8 por cento ao ano, elevando a prestação em 11,4 por cento para um contrato de 30 anos com amortização constante.

Esse aumento de custo reduz a capacidade de endividamento das famílias. Um tomador que suportava financiamento de 450 mil reais com Selic em 10,50 por cento passa a qualificar apenas 410 mil reais quando a taxa sobe dois pontos percentuais, considerando a regra de comprometimento de 30 por cento da renda familiar. A redução de 8,9 por cento no valor financiável comprime a demanda por imóveis de entrada, especialmente na faixa de 600 mil a 900 mil reais, onde a alavancagem é mais intensa.

Com menor demanda, os preços de venda ajustam-se para baixo. Dados históricos mostram que, entre 2015 e 2016, quando a Selic média anual atingiu 14,25 por cento, o preço médio do metro quadrado residencial em São Paulo recuou 6,8 por cento em termos reais. Em contrapartida, entre 2019 e 2020, com Selic média de 4,40 por cento, o mesmo indicador avançou 4,2 por cento real. O multiplicador de preço por variação de Selic aproxima-se de 1,8 vezes em ciclos de alta e 1,4 vezes em ciclos de baixa, considerando defasagem de 12 a 18 meses.

Efeito nos fundos imobiliários de papel e de tijolo

Fundos de papel, lastreados em certificados de recebíveis imobiliários, sofrem impacto direto via marcação a mercado. Um CRI prefixado a 12,00 por cento ao ano perde valor presente quando a Selic sobe para 13,50 por cento; o preço unitário cai aproximadamente 8,7 por cento para prazo médio de cinco anos, calculado pela fórmula de duration modificada. Fundos de tijolo, por sua vez, sofrem pressão indireta: cap rates de locação sobem para competir com a renda fixa, reduzindo o valor patrimonial dos imóveis e, consequentemente, o patrimônio líquido do fundo.

A comparação entre dividend yield de FIIs e taxa Selic ilustra a migração de capital. Quando a Selic está em 8,00 por cento, um FII de escritórios com dividend yield de 7,20 por cento e crescimento nominal de aluguéis de 3,00 por cento apresenta retorno total esperado de 10,20 por cento, superior à Selic. Com Selic em 13,00 por cento, o mesmo fundo entrega retorno inferior ao ativo livre de risco, atraindo resgates e pressionando o preço das cotas para baixo até que o dividend yield atinja 9,50 por cento, restabelecendo o spread de risco.

Posicionamento do investidor imobiliário em ciclos de selic

Em ambiente de Selic acima de 11,00 por cento ao ano, prioriza-se alocação em imóveis com fluxo de caixa indexado ao IPCA e baixa vacância estrutural, como galpões logísticos e shoppings com âncoras de alta qualidade. O cap rate exigido sobe para 7,50-8,50 por cento, permitindo aquisição com desconto de 12 a 18 por cento em relação a períodos de Selic baixa. Simultaneamente, fundos de papel com duration inferior a três anos oferecem proteção contra marcação a mercado, desde que o spread sobre o CDI supere 2,00 pontos percentuais.

Em ciclos de queda da Selic abaixo de 9,00 por cento, a estratégia inverte: imóveis com potencial de compressão de cap rate, como lajes corporativas em regiões com absorção líquida positiva, tornam-se atrativos. O investidor pode alongar duration dos recebíveis imobiliários e reduzir a exposição a fundos de papel de curto prazo, cujos retornos convergem para a Selic. O cálculo de TIR para um imóvel adquirido com cap rate de 6,80 por cento e venda projetada em cinco anos com cap rate de 5,80 por cento resulta em retorno anualizado de 14,30 por cento, contra 9,50 por cento da Selic projetada no mesmo horizonte.

Em todos os cenários, o investidor deve aplicar o teste de sensibilidade: variar a Selic em 200 pontos base e recalcular o valor presente do fluxo de caixa do ativo. A diferença entre os dois valores presentes indica o risco de taxa de juros embutido na posição. Disclaimer: este material tem caráter educativo e não constitui recomendação de investimento; rentabilidade passada não garante resultados futuros.

Deixe seu comentário abaixo com a estratégia que você tem adotado e acesse os briefs 26 e 27 para atualizações quantitativas.

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